Emburreçam, burros!

– Muito bem, parece que você está preparado para a prova. Resolveu estudar.

– Fazer o quê? Se eu não tirar uma nota máxima nessa prova levo bomba. Fiquei a semana toda lendo esse livro, sei absolutamente tudo que acontece.

– Ótimo. Vamos indo para a sala de aula.

Os dois se levantaram e começaram a caminhar pelo pátio do colégio.

– Tem mais uma pergunta que o pessoal está especulando, essa provavelmente cairá na prova.

– Manda.

– Caso você acerte essa, estará pronto para a nota dez.

– Ok, posso responder qualquer pergunta.

– Qual a altura e o peso dos personagens principais?

Celso, que até o momento caminhava calmamente ao lado do amigo, Gabriel, virou-se como se a pergunta fosse uma ofensa, uma bofetada.

– Mas que merda de pergunta é essa?

– Você não se lembra daquela parte que os dois alunos recebem um castigo do professor, ele pergunta: qual a altura e peso do seu colega?

– Sim, eu lembro.

– Vamos, qual a resposta?

– Eles usam uma técnica inteligente para descobrirem a altura e o peso um do outro, utilizando comparativos e proporções. Escapam da punição.

– Exatamente, mas qual a altura e o peso deles?

– Deixe de ser besta! Por que o professor faria essa pergunta? O certo seria questionar como eles descobriram. Qual forma foi utilizada? Percebe como é mais inteligente a minha pergunta? Burros! Só o fato de vocês especularem a maldita possibilidade dessa pergunta já faz de vocês umas antas, dementes, entende? É um absurdo! Mais de 200 páginas de livro e olha a pergunta que vocês criam!?

– Você não sabe né? Eu compreendo, eu mesmo não lembrei, mas já decorei a resposta.

– Não sei, é uma informação inútil. Se eu prestasse atenção e decorasse essa informação não teria entendido a fórmula que usaram para a descoberta. O cérebro é seletivo, o meu selecionou a informação útil, inteligente. O burro que especulou essa pergunta absorveu a informação merda. De certo, não sabe nada do que acontece no livro, mas sabe as medidas da mesa de centro da casa dos personagens de cor e salteado, sabe a cor das cortinas de cada cômodo de cada porra de local citado, a maldita idade, altura e peso de todos os personagens!

Ambos continuaram andando enquanto Celso gritava e gesticulava como um advogado de acusação em frente ao júri. O réu era a pergunta especulada que, em sua visão, havia assassinado qualquer bom senso do universo do aprendizado. Ela deveria ser presa, receber a pena de morte.

– Celso, a fonte dessa informação é quente, os alunos da manhã fizeram a prova e disseram que caiu essa questão!

– Se essa pergunta cair é o fim dos tempos. É a prova que o mundo está por acabar, que a humanidade involuiu! É a evidência que a escola não serve para nada, que estamos perdendo o nosso tempo! Afinal, ela terá ensinado a todos qual o peso e altura de dois certos personagens, de certo livro, escrito por certo escritor, em certo ano, num certo país… Ao invés de cobrar se o aluno entendeu a essência de tudo, se absorveu o que interessa!

– Celso, cala a boca, seu raciocínio faz sentido, mas você sabe como são as provas. Não duvido que essa pergunta apareça e você precisa saber a resposta!

– Se cair eu repito o ano, com gosto e desgosto!

Nesse momento, o sinal para entrarem na sala de aula tocou e Gabriel perdeu a paciência:

– Chega! Olha para mim – ele segurou forte nos ombros de Celso, virando-o para si com as duas mãos – olha pra mim sua mula teimosa! Temos que entrar na sala de aula, ouviu o sinal? Não é hora de questionar a merda do sistema! É hora de tirar dez nessa prova e passar! Esse tempo todo em que explodiu em revolta, tentando achar o sentido disso tudo, você poderia ter usado para decorar o maldito peso e o cacete da altura de ambos e ficar tranquilo caso a pergunta apareça na prova! Quer perder o ano? Quer que seus pais te surrem? Preste atenção, a altura e o peso são…

– Não diga. Se você me falar e eu decorar estarei compactuando para o assassínio da educação. Estarei contribuindo para o triunfo do decorar frente ao aprender! Contribuindo para que os burros se perpetuem e os inteligentes sejam engolidos pela ignorância! Resta-me apenas a fé, na educação, na humanidade, não aceitarei que a tire de mim! Entendeu!?

– Ok, não reclame se o seu ano for perdido por causa dessa pergunta.

Os dois entraram em sala de aula, sentaram em suas cadeiras e aguardaram o professor entregar as provas.

– Vocês terão 45 minutos para terminar o teste. São dez perguntas, espero que tenham lido o livro e aprendido.

Celso pegou a prova e a primeira pergunta que seus olhos encontraram naquele papel, naquela sala de aula, foi a seguinte:

“Durante um castigo, o professor desafia os personagens principais a descobrirem o peso e a altura um do outro. Eles utilizam uma técnica criada por eles para chegar ao resultado. Qual a altura e peso descobertos?”

Em choque, Celso levantou-se, cambaleou feito um derrotado em direção à saída, os olhos vidrados, sem piscar. Todos olharam com surpresa aquela figura se dirigindo para a porta, perplexos. Ele parou se apoiando no batente, de costas para a turma, endireitou a postura, respirou fundo e se virou. Encarou todos na sala de aula, um por um, e disse por fim:

– EMBURREÇAM, BURROS!

E se retirou do local.

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Published in: on dezembro 29, 2015 at 3:09 pm  Comments (2)