Dinâmica de grupo: quando cães se digladeiam pela carne

HUMILHAÇÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!

Uma das piores invenções do ser humano, e olha que tem várias criações idiotas, é a chamada dinâmica de grupo. Nesta tarde atendi o celular. Era um homem falando sobre uma vaga de emprego. Conversamos por alguns minutos e no fim ele disse o que eu temia:

– … te mandarei um e-mail com mais detalhes, marcando para você vir aqui, participar de uma entrevista em grupo.

– Dinâmica de grupo?

-Aham, e depois a gente…

– (Putaqueopariu…)

Foi decepcionante, me segurei para não desligar na cara do cidadão, já que preciso evoluir e odeio meu atual trabalho. Pelo menos o rapaz teve a decência de me avisar antes. Assim, poderei me preparar física e psicologicamente para este estupro mental, esse arreio moral, essa tortura e humilhação. A dinâmica consiste, na maioria das vezes, em cerca de dez fudidos, infelizes à procura de um emprego qualquer. E nesse curto período, você tem que se destacar de qualquer jeito. Se não, será mais um ali, passará batido. Resumindo: eles juntam cães famintos em uma sala e no meio dela uma pessoa com um pedaço de carne nas mãos falando: matem-se!

São todas iguais, vai chegando um por um. Você entra na salinha e é encarado de cima a baixo por seus inimigos. Sim, são inimigos, filhos da puta que estão ali para tirar seu futuro ganha pão. Não são colegas de profissão, concorrentes nem nada dessa ladainha toda. O tempo dos gladiadores não acabou, apenas mudaram as armas, as formas de humilhação e os locais de batalha. No fundo, todos sabem que são rivais e só um vencerá a disputa. Aquela troca de sorrisinhos entre os candidatos não me engana. Tem a habitual conversinha antes de começar a chacina. As palavras entre parênteses são os pensamentos das pessoas:

– Tudo bem (seu filho da puta)? Qual seu nome? Se formou aonde (espero que não seja melhor que a minha faculdade)?

– Rafael (e o que te interessa?), e o seu (como se eu quisesse mesmo saber)? Me formei na Metodista e você (sua puta, aposto que foi por correspondência)?

– Natália. A Metodista? Ótima faculdade (que merda, já ganhei desse cretino). Me formei na Casper Líbero, fiz pós-graduação na casa do caralho e blábláblá.

– Nossa, que legal hein (foda-se)?

– Obrigada (seu trouxa)

Após uma troca de conversinhas desse tipo, entra o maioral. A pessoa que se acha o controlador do seu destino. E, do alto do seu pedestal de empregador, começa a tirar onda da cara dos miseráveis que compõe o “grupo” da “dinâmica”.

– Oi pessoal, tudo bem? Boa tarde. Vai ser bem simples, não quero tomar o tempo de vocês.

Se você ouvir o “não quero tomar o tempo de vocês” corra, fuja, ou se mate. Vai demorar pra caralho e provavelmente você não será chamado. Porque são várias dinâmicas, cada uma composta de dez infelizes. Só UM será chamado. As chances de você passar são quase nulas. Eu participei de duas na minha vida, semana que vem terei a terceira. Na primeira, por incrível que pareça, fui muito bem. Venci todos! Na raça! E me destaquei. Fiz de tudo, só faltou plantar bananeira. Devo ter feito isso também, mas minha memória seletiva tratou de apagar. Pelo que soube, acho que só eu passei para a fase seguinte.

Depois de tudo que fiz, amigos, tinha uma segunda etapa!

– Rafael, você passou!

– Aeeeeeeee!

– Para a segunda fase

– Aaahhhhhhhh

Mandaram-me falar com o editor da revista, que foi um completo cretino comigo. Falou cinco minutos, como se eu não tivesse passado por uma enorme batalha para estar ali, e me dispensou. Deu muita vontade de falar: seu velho safado, para chegar aqui eu tive que passar por muitas coisas e você me trata como se eu estivesse batendo na sua porta pedindo pão velho. Seu lixo!

Enfim, não disse isso. Anos depois, fui chamado para outra entrevista do tipo. Ao contrário da que fui chamado hoje, nessa ela não me avisou que seria dinâmica. Fui animadão tals, feliz, esperançoso, chego lá dou de CARA com um grupo de cães famintos. Deu vontade gorfar, de pular pela janela, juro por Deus. Passei trinta minutos na salinha esperando a infeliz aparecer, ouvindo os papinhos falsos e pensando na forma mais rápida de me suicidar. “O que eu to fazendo aqui? Puta merda, não acredito.”

Resumindo, passei a tarde toda me fudendo, ouvindo um monte de ladainha, escrevi, À MÃO, quatro textos gigantescos e não fui chamado. E acho que ninguém foi chamado. Eles devem fazer isso, quando não tem trabalho na empresa. Como forma de passatempo.

– Dia chato hoje não?

– Pois é…

– Borá fazer uma dinâmica com uns otários?

– Boa idéia!

Ficam lá, zoando com a nossa cara, enquanto um grupo de funcionários assiste por vídeo, ou atrás de um espelho falso, às gargalhadas.

– Passa a pipoca ae fulano! Esse branquelo narigudo é uma piada! KKKKK! Valeu muito à pena!

Enfim, juro que caso um dia eu faça seleção para emprego, JAMAIS farei dinâmica de grupo. Pedir para trabalhar já é uma humilhação, grupal ainda? É muita sacanagem. O filho da puta, você mesmo que gosta de fazer dinâmica, tenha a decência de reservar 15 minutos para cada infeliz. Converse decentemente com eles. Nem sempre aquele que é o mais extrovertido, simpático, carismático é a melhor opção. Muita gente trava num ambiente desses, pessoas capacitadas. Com muita gente, provavelmente você vai ignorar o que se fechar e empregar o palhaço de circo, como eu fui na dinâmica que passei.

Bom, pegarei meu machado, meu escudo e irei para a liça. Afinal, depois de 25 anos de sistema, o que me restava de vergonha na cara já foi para o ralo. Ou se submete, ou se humilha, ou fica na merda. Lá vamos nós, para mais uma humilhação desta merda que chamamos de VIDA.

Published in: on setembro 22, 2010 at 9:38 pm  Comments (22)