As lições e traumas que tive com meu pai

Domingo teve dia dos pais e me peguei pensando sobre os ensinamentos que tive com o meu. Cheguei à conclusão que muito do que sou hoje devo ao meu velho. O sarcasmo, ironias, a genialidade, as sacadas, a capacidade de escrever, música, miopia, roubar nos jogos etc. A maioria foi passada com a convivência em todos esses anos. E com traumas também, como vocês leram no texto anterior, quando o mesmo tacou limão no meu olho com terçol. Diversos outros episódios aconteceram nesses anos.

Meu pai sustentou a minha casa (e ajuda nisso por livre e espontânea pressão judicial até hoje) e sustentou também uma mulher fora do casamento. Não era amante não. Seu nome era Heloísa, a terapeuta dele. São mais de 35 anos de terapia e minha mãe sempre afirmava que era dinheiro jogado fora, já que ele sempre foi o mesmo animal Homer Simpson de sempre. Um dia ela fez terapia também e passou a compreender:

 – Eu achava que não tinha dado resultado. Hoje vejo que deu sim e imagino como ele seria se não tivesse feito.

 Algo a se pensar. Como seria meu pai sem a terapia? Talvez mais genial, talvez mais louco… Não sei, sei que não é fácil ter um pai perturbado. Mas não é de todo mal.

 Aprendendo a lição da coragem

Morávamos em uma rua que tinha feira todas as terças. Uma vez, estava brincando com minha irmã no quarto. De repente, vimos um rato sair de baixo da cama para a cozinha. Eu e ela subimos no beliche e ficamos gritando lá, chamando por ele, já que minha mãe estava no banho. O diálogo foi simples:

 – Que foi?

– Pai, saiu um rato enorme dali, foi pra cozinha!!!

– Muito grande?

– Aham, desse tamanho – disse, indicando com as duas mãos. Imagino que tinha quase 20 centímetros.

– Caramba tudo isso? Dá um espaço aí então.

 Ele simplesmente subiu no beliche e ficou gritando junto com a gente!

 – Mãe!!!!

– Roooooose!!!!

– Mããããe!!!!

– Roooooooose!!!

 Minha mãe teve que expulsar o animal (o rato) da casa. Enquanto o outro animal (meu pai) fechava as portas para o roedor não voltar enquanto ela corria atrás dele com a vassoura. Uma bela demonstração que devemos ter coragem! Encarar os medos! Afinal, sou um homem, não um rato! Né pai?

 Aprendendo que o importante é competir

 Meu pai nunca soube perder. Rouba até em par ou impar e, com certeza, a influência dele foi determinante para minhas trapaças em jogos. Até porque, para vencê-lo, tinha que trapacear também, se não era impossível. Agora imaginem crescer com isso? Tendo que roubar porque o pai não deixava a criança ganhar? Tem um vídeo que estamos brincando de lutinha e ele dá uma demonstração de esportividade e caráter admirável ao filho. Minha mãe filmando, anunciou o começo da luta. Fui para cima dele quando ele me interrompeu:

 – Espera aí! E o cumprimento antes da lutinha?

Estendi a mão para ele. Meu pai a pegou, deu um golpe e me derrubou com tudo no chão. Eu, é claro, comecei a chorar enquanto ele ria que se mijava (a lá Raimundos). Minha mãe ficou puta tentando convencê-lo a me deixar ganhar. E a pergunta amigos: como eu venci a lutinha? O que tive de fazer para ele deixar eu vencer? O mesmo truque dele! Tive que trapacear, falar para cumprimentá-lo, puxar a mão dele e derrubar. Inconscientemente qual a lição que a criança aqui aprendeu? “Trapaceie e irá vencer qualquer desafio.”

Nossas lutinhas continuaram por muitos anos, sempre com o mesmo final: eu chorando após um soco na barriga, ele dizendo que não deu com força e minha mãe berrando. Ele também brincava de “Elastikon” comigo. Era um carro que poderia passar por qualquer obstáculo, segundo a propaganda. E no vídeo o carrinho transpondo pedras e outros objetos. A brincadeira era simples. Ambos deitados, ele o elastikon, eu os obstáculos.

No futebol não era diferente. Jogávamos na praia a pelada chamada “golzinho fechado”, onde o gol tem, no máximo, cinco passos de largura e não tem goleiro. Uns três ou quatro de cada lado. O problema é que meu pai nunca saía de dentro do golzinho e ele ocupava todo o local, sendo praticamente impossível marcar um tento. As raras vezes que a bola conseguia entrar ele dizia que foi por cima da trave e não valia. E quando chegávamos perto ele batia. E não pensem que ele aliviava para a minha irmã não. Uma vez ele deu um chute na canela dela que deve estar roxo até hoje. Agora vocês sabem porque roubo tanto em qualquer jogo.

Aprendendo a respeitar as autoridades

 

Poucas coisas meu pai odeia tanto quanto policiais. Segundo ele, não servem para merda nenhuma, a não ser ganhar dinheiro para nos reprimir, enquanto a ROTA convive pacificamente na mesma esquina da Cracolândia. Numa dessas, estávamos indo ao clube nadar quando ele viu uma policial olhar para o nosso carro e anotar a placa. Ele parou o carro furioso e foi falar várias para a mulher porque ela escreveu a numeração da placa em uma das mãos:

 

– Escuta aqui menina, eu pago imposto para você trabalhar, nunca atrasei pagamento algum! Se é para ser multado exijo pelo menos um papel!!!

 

– Menina não meu senhor, autoridade.

 

Nem preciso dizer que, a partir daquele momento, fudeu de vez. Uma minazinha arrogante de um metro e meio exigindo que meu pai a chamasse de autoridade. Ele passou a tarde falando um monte para aquele ser. O tenente, sei lá o que, queria levá-lo para a delegacia por desrespeito, mas desistiu, coincidentemente no momento que soube que ele é jornalista. Ele estava até sem o documento do carro e mandando todo mundo à merda. Eu tive que correr até em casa, pegar o documento e voltar enquanto ele discutia. Resumindo, perdi o clube, mas deu para dar risada.

 

Outro exemplo de respeito aconteceu anos depois. Estava perto de fazer o teste de carteira de motorista. Estávamos indo para o trabalho dele quando, no caminho, tinha uns cones, idêntico ao teste de motorista. Ele parou do lado e falou:

 

– Olha só Ra, lá você terá que fazer assim.

 

E estacionou entre os cones, explicando direitinho como fazer. Nisso parou um carro do lado e o cara puto dizendo que estavam fazendo teste de motorista naquele momento e ele estacionado no local da baliza. Meu pai pediu desculpas, explicou que estava me mostrando e não sabia do teste. O cara puto falando para ele sair de lá já, que era autoridade blábláblá. Falou a palavra mágica: autoridade. Meu pai saiu do local sim, mas derrubando todos os cones do teste. Atropelou cada um e, quando chegamos no trabalho dele vimos que tinha um cone embaixo do carro. Além de destruir o local do teste, acabamos “roubando” um cone. Mais um exemplo de disciplina e tranquilidade.

Psicologia de papai

 Eu e minha irmã brincávamos muito e brigávamos de forma proporcional. Quando minha mãe enchia de repreender, bater e separar ela ameaçava: vou contar para o seu pai hein? Era o último recurso dela. Eu e a Giulia (irmã) entendíamos o recado e geralmente parávamos. Ninguém quer ser submetido ao julgamento de um louco. Numa dessas, ele estava em casa, eu e ela se batendo na cama e minha mãe:

 – Arnaldo faça alguma coisa, eu não agüento mais esses dois, acaba com isso!

Ele foi até o quarto, olhou para a gente e disse: “MATEM-SE!” Fechou a porta e foi para o quarto dele dormir. Pode parecer loucura, mas funcionou. Eu olhei para a minha irmã com expressão de descrença, ela também e paramos de brigar.

Bom, essa é minha homenagem a você pai. Louco, mas genial. Valeu por tudo! Feliz dia dos Pais!! Amo você!

Anúncios
Published in: on agosto 11, 2009 at 9:11 pm  Comments (9)  

The URI to TrackBack this entry is: https://hilariodiario.wordpress.com/2009/08/11/as-licoes-e-traumas-que-tive-com-meu-pai/trackback/

RSS feed for comments on this post.

9 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Bom, conheço muito mais meu primo Ra que meu tio, pai dele. Mas por conviver mais com o Ra mesmo, embora eu curta demais os poucos momentos que passei junto ao tio Arnaldo! O cara realmente é uma figura! Lembro até hoje nós indo almoçar num restaurante, eu, meu irmão, o Ra, a Giulinha e ele, fumando dentro do carro fazendo um fumacê danado, hauha:

    (Giu) – Nossa pai, apaga esse cigarro, pelo amor de Deus!

    (Tio) – QUEM SE IMPORTA?! EU TÔ MORRENDO MESMO! Não é Andy?

    (Eu) – KKKK! É!

    Huahuah comédia! É o maior exemplo de pai “Homer Simpson” que eu já conheci! Genial e louco!

    Hahuah só imagino ele arrastando os cones, atropelando tudo, ahuehaueh! Essa da lutinha eu já sabia dessa história, de “cumprimentar” o oponente, KKKK! (Pouca gente vai entender o “Ria que se mijava”, à lá Raimundos hein dom?)

    Bom, é o que dizem né? “Filho de peixe, peixinho é!”! Por isso que eu gosto de jogar (qualquer coisa, seja vôlei, seja magic, seja videogames) no mesmo time/lado que o Ra!
    É muito engraçado quando “fazemos algum ponto” quando ele rouba, falando que a bola caiu do lado de dentro do outro campo, quando na verdade, ela caiu fora! Vibra na hora! “AÊEEEEEE!!!!!! AH, CARALHO!!!!!!!” xD

    • “Filho de peixe, peixinho é!”
      Já falei pro Ra, se ele me der uma dessas quando a gente casar (de subir na cama e mandar eu pegar o rato) eu pego a vassoura sim mas pra tacar na bunda dele… huahuahuahua

  2. Só um reparo. Não dei um chute na minha filha. Ela escapou com a bola. Corri atrás. Vi que não dava para chegar. Dei-lhe um rapa, pelas costas. Ela chorou. Pedi desculpas: “Filha, foi sem querer…”

    Parabéns pelo texto. Muito bom!

    Ass. Pai, o réu confesso que já está pronto para cuidar dos netos!

  3. Isso explica algumas coisas… como vc querer ganhar até nos joguinhos de cartas, tentar me roubar até no “Tapão”, brigar comigo qdo deixo passar as bolinhas do adversário no Pebolim e brigar tbm qdo erro os tiros no Gunbound, e estamos no mesmo time.. (Eu sou noob mesmo!! =P ) huahuahauhua

    Tá engraçadíssimo o texto, teu pai é mesmo um figura heheheh “matem-se” foi realmente genial, vc já tinha contando e eu já tinha rachado o bico… hahahaha

    Engraçado também a gente pra comprar ingressos pro jogo do Santos, o cambista pro seu pai “60 reais cada ingresso”, seu pai prontamente passou reto e já andando: “ce acha q eu sou palhaço?” (ou alguma coisa assim rs) e o cambista já láaa atrás “ahh faço por vinte…” huahuahaua

  4. Adorei meeeeesmo…
    Pasando pra deixar minha asnatura aki…

    e eu chorei de rir na historia do rato… acho q sua mae devia ganhar um prêmio por tirar o rato de dentro de casa!!!… se fosse eu, eramos os 4 em cima da cama o dia todo!!! shaushuuiahsuiahsiuas…

    =*

  5. Legal Rafa!!
    Gostei muito e concordo contigo.
    Abraços.

  6. Auahuahuhauah, essa historia do rato eu lembro da sua mãe contando “Ôoo ROOOOSSEEE!” uhuhuhuhuuhuahuh.

    Bom pelo que bem me lembro TODAS as vezes que vi o tio Gordo eu rachei o bico com alguma merda que ele fez ou falou, não me lembro de um dia triste perto dessa figuraça. No fut de praia quando era familia contra nao familia era sempre a mesma coisa, ele dentro do gol e uma bica junto com um grito “CORRE CHINEEESS….” auhauhauhauahuah quase sempre dava certo.

    Abraço tio Gordo!

    Abraço Cabeça!

    • KKKKK! AQUELA BICA né?! HAUHAU!

      “CORRE CHINÊS!!!!!!!!!!!”

      HAHUAH! Pior que o China corre pra kct!

  7. caraioooo, seu pai é meu ídolo!!!

    choreii…

    – ROSEEE!! UM RATOOOO!!! hauhuahahuhaua
    Imagino ele arrebentando a canela da sua irmã!!!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: