A necessidade de se mostrar bem

"Essa é a visão mais ou menos que tive hoje de manhã pessoal :P "

(Texto escrito há alguns dias, guardado para o início do ano)

Às vezes, meus caros, eu penso no quanto o ser humano é patético e previsível. Conversando com um colega de trabalho esses dias, refletimos sobre essa necessidade do Homem em ser admirado. Em ser consagrado e invejado. Despertar a admiração alheia parece uma obrigação. A vida, em si, prega isso: faça sucesso, ganhe dinheiro, seja invejado ou serás um completo perdedor.

Um exemplo. Nesta época do ano, verão, as mídias sociais estão repletas de fotos em praias, sítios, locais turísticos e paradisíacos. Você abre sua página pessoal e na entrada tem pelo menos três praias diferentes. Eu pergunto: para quê? Qual o intuito dessas postagens? De estar na praia, tirar uma foto e colocar: “vidinha mais ou menos hein?” Qual outro motivo seria a não ser o de ostentar um momento legal de sua vida? Postá-las no álbum pessoal, quando já está de volta de viagem, à toa em um computador, é normal. No entanto, a maioria posta onde mais pessoas poderão ver e in loco! Diretamente do local! Ao invés de dar um mergulho elas procuram um ângulo legal, uma pose bacana, uma conexão na internet e pronto. Mais uma “fotenha” na rede!

O Homem parece ter necessidade de mostrar que está bem, que está feliz e melhor que os outros. Curtir o momento, a alegria de estar em um lugar bacana, não parece ser suficiente. É preciso que os outros “curtam” esse status atual, se é que me entendem. É preciso esfregar isso na cara, de preferência na de pessoas que não podem estar ali.

Essa atitude gera um ciclo vicioso. O caboclo que está na cadeira do trabalho e vê aquilo não perderá a oportunidade de postar uma foto no paraíso e dizer a si mesmo: “pronto, agora é a minha vez!” Muitos podem pensar que não tem nada a ver, ou que eu tenho inveja etc, mas pensem bem, com imparcialidade, e verão que tem sim a ver. Não é proposital e sim inconsciente. Acredito que quase ninguém poste a foto com o objetivo claro de causar a inveja ou a admiração. A atitude de mostrar que estamos bem se deve ao que passamos no nosso dia a dia, ao que observamos desde quando nascemos.

A necessidade de se mostrar para os outros domina a humanidade desde cedo. Afinal, qual a raça mais competitiva do planeta? O caso das fotos foi apenas um exemplo. Quando algo de bom acontece na vida das pessoas, elas fazem questão de anunciá-las.

Posts típicos de Facebook e Orkut:

“De namorado novooooooo! Te amo lindo”

“Acabo de ser promovido pessoal”

“Faltam 3 dias para as férias!”

“Ganhei um carro do meu pai, olha que lindo!”

Sempre que algo bom acontece a primeira coisa que passa na cabeça é: preciso anunciar isso! É aí que mora o perigo. Pessoas invejosas existem em todos os cantos, criada, em grande parte, pelo ciclo vicioso da própria ostentação. E, acredite, inveja muitas vezes derruba. “Mas qual é a graça de ter as coisas se não mostrarmos para ninguém? Qual a graça de ser feliz, viajar e fazer tudo isso em segredo??” Pronto, você que pensou isso já está dominado pelo ciclo do mal e será difícil te arrancar daí.

Esse sentimento, essa obrigação que a própria sociedade nos impõe, traz outro problema. Acabamos nos afastando do que realmente queremos para nós mesmos. Nós passamos a lutar para agradar as outras pessoas, para ser alguém a ser admirado quando o que verdadeiramente importa é conquistarmos nossa própria admiração. O sentido da vida é estar satisfeito consigo mesmo e fazer o que te faz bem. A maioria deixa os sonhos de lado e passam a seguir o caminho da admiração pública. Do pseudo-sucesso. E a felicidade desse caminho jamais será completa.

Parece utópico o pensamento de seguir apenas os sonhos, porque é realmente difícil lidar com isso. Lidar com o que a sociedade pensa de você. A vida cobra e cobra pesado. Temos todos os tipos de inovação tecnológica e a atividade preferida do ser humano continua sendo a mesma: falar mal da vida alheia e cobrar dos outros o sucesso não alcançado por si mesmo.

Infelizmente, não vejo solução para isso. Apenas pessoas com capacidade de analisar de forma imparcial, de ver tudo o que acontece por cima, chegam a esse tipo de conclusão. Espero, por meio deste post, ajudar vocês a refletirem e analisarem melhor o próprio ser humano e, aos poucos, se tornarem pessoas mais críticas e menos influenciáveis.

Um abraço a todos e um ótimo ano.

Publicado em: às janeiro 2, 2012 em 5:45 pm  Comentários (5)  
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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Acontece que reza na sociedade a obrigação de sermos felizes sempre. E, paralelamente, a concepção de que felicidade e bem-estar social são atrativos e atributos de alguém interessante. Aí, como você disse, há literalmente uma competição. Afinal, filosofando, a vida é comparativa: o sucesso depende de sabermos o que é o fracasso, a felicidade só existe por conhecermos a tristeza.
    Mas estou contigo. A necessidade de se mostrar bem é compreensível, mas pouco construtiva.

    • Com certeza Vitinhez!

      Não tinha me passado pela cabeça essa obrigação de sermos felizes e que isso é um atrativo de alguém interessante. Realmente, não postar coisas legais nas redes sociais faz de você uma pessoa chata. A pessoa atrativa é aquela que mais desperta admiração e esse é mais um motivo que influencia nessa ânsia de ostentar as coisas boas que acontecem em nossas vidas.

      Valeu a força, ótimo comentário!

  2. O brasileiro e todos os povos que pegaram “o bonde andando” da tecnologia foram seduzidos, assim como os índios, pelos espelhos do futuro. Neles a vida é a esperança da inclusão. Um sobro no marasmo de uma vida fadada em ser apenas a de um “mortal comum”. Como nossa cultura é nova e frágil e nossa riqueza natural é mais admirada do que nossa miscigenação ficamos na espectativa dos heróis de cada dia para cultivarmos a necessidade de sermos tão bem-sucedidos e vitoriosos como nossos antepassados europeus. Enquanto não tomamos a atitude de construir nossa própria tecnologia, forjando assim, nossa real indepêndencia, não seremos completos, orgulhosos de nossa existência como nação, estando, assim, expostos a essa insuficiente orgia de pequenos pixels de gozo, desse rápido prazer de ser um pouco menos coisa nenhuma. Abz! Soma

  3. Creio que todos desejam ser felizes. E se há a procura pela tal felicidade é porque primeiramente não se sente feliz. A necessidade de divulgar que está feliz é porque, de fato, não se está feliz. O que é é, e pronto. Não há necessidade de exacerbar uma satisfação, ostentar uma posição. Quando um namorado ama sua namorada, não precisa falar que a ama a cada meio dia. Se ele ama, ama, ele não precisa de confirmar por sua própria linguagem para ele mesmo acreditar. Então, penso que o título do texto, muito bem construído, Rafa… “A necessidade de se mostrar bem” se justifica em mostrar justamente aquilo que não se tem. Não é à toa que as pessoas mais ricas materialmente são as que geralmente mais se queixam de um “vazio”. E são essas mesmas pessoas que mais divulgam esse “estado de felicidade”. Essas procuram a felicidade fora delas. E acredito que não seja por aí. Felicidade, sentir-se bem nada tem a ver com aparência, mas sim com sensação, emoção, sentimento; ser feliz pra si. Essa felicidade pode ser provada no silêncio e, se assim for, é a prova real de que há , de graça, uma verdadeira e pura felicidade; sem rodeios.

  4. Às vezes eu acho que as pessoas tem a tecnologia da informática ao seu alcance, mas não sabe fazer uso dela – não sabe utilizar como meio de aproximação das pessoas, utiliza como forma de auto-afirmação, sim porque que está bem consigo mesmo e é feliz não precisa ficar gritando aos quatro cantos: “Veja como estou feliz! Veja quantos amigos eu tenho! Veja como me divirto!”. O mundo de conhecimento que a internet nos dá acesso devia despertar nas pessoas um pouco mais de humildade, o quanto somos pequenos e pouco sabemos diante do universo. Devia despertar um pouco mais de compaixão e amor ao próximo, compreensão, união, mas parece que o que desperta é a inveja – se você posta uma foto num parque o outro logo vem postar uma foto na praia paradisíaca, pronto! Já se perdeu o verdadeiro sentido do que é ser feliz.


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